Escola Pitagórica
A sociedade fundada por Pitágoras por volta de 530 a.C. em Crotona, no sul da Itália (então parte da Magna Grécia), é hoje conhecida como Escola Pitagórica ou pitagorismo. Nela, o mestre fundador e seu grupo de discípulos seguiam rígidos princípios morais, praticavam uma vida comunal e provavelmente vegetariana e estudavam astronomia, geometria e outras ciências naturais, além de política, ética e religião. As lendas acerca do comportamento deste grupo, principalmente no que diz respeito aos seus ritos e hábitos de secretude, fazem com que muitos se refiram aos pitagóricos como uma seita. O objetivo maior de seus membros, através do estudo e da vida ascética, era atingir um tal grau máximo de conhecimento e superioridade espiritual que os permitiria escapar do ciclo de reencarnações de suas almas, superar a esfera terrena e atingir a divina. Era, enfim, uma sociedade ao mesmo tempo mística e filosófica.
É difícil apontar a autoria exata de muitas das doutrinas e descobertas derivadas do pitagorismo. A ideia da alma imortal e seu ciclo de reencarnações, por exemplo, seria herança do orfismo, antiga tradição religiosa grega. Sobre as extraordinárias descobertas e teorias matemáticas e astronômicas, muitas delas, a depender da fonte de referência, aparecem associadas a diferentes nomes de discípulos pitagóricos, ou seja, nem sempre diretamente a Pitágoras. Nos escritos de Aristóteles, de fato, lemos apenas “pitagóricos” e nunca o nome de Pitágoras.
Em todo o caso, a existência e a relevância deste grupo para a história da filosofia nunca estiveram em questão.
Devido à importância que os pitagóricos davam ao número e às relações matemáticas, costuma-se atribuir a eles o surgimento da perspectiva da ciência como pensamento e reflexão abstratos, ou a matematização da ciência. Conceitos como demonstração e dedução advém do pitagorismo; da tese essencial defendida pelos pitagóricos — que podemos elaborar como “tudo é número” — surge a possibilidade de compreendermos a ordem universal através do pensamento racional. Até mesmo a música pode ser explicada pelos números, conforme comprovado pelos pitagóricos através de seus experimentos pioneiros com instrumentos musicais e da subsequente fundamentação do conceito de harmonia via proporções numéricas. 1
Este foco no número como uma entidade pura e eterna, através da qual os seres humanos poderiam alcançar o que então considerava-se “divino”, está na base do racionalismo ocidental e de toda a revolução científica que viria a seguir. No que diz respeito a ética e a moral, o pitagorismo está também entre as influências do cristianismo e de muitas outras correntes filosóficas-religiosas e de diversas sociedades secretas. No campo da astronomia, diz-se que os pitagóricos foram pioneiros na difusão da ideia de que a Terra é esférica, embora Parmênides também seja citado como precursor desta concepção. O pitagórico Filolau teria sido o primeiro a sugerir que a Terra não está no centro do universo, sendo apenas um dentre vários planetas. 2
Alguns dos grandes nomes da filosofia grega associados ao pitagorismo são Filolau de Crotona, Arquitas de Tarento, Teano de Crotona e Alcmeão de Crotona. É bastante provável que as mulheres tivessem os mesmos direitos que os homens dentro da Escola Pitagórica. Teano de Crotona, que pode ter sido esposa de Pitágoras, teria inclusive assumido a liderança da sociedade após a morte de seu fundador. Outros nomes femininos de destaque no pitagorismo são os de Perictíone (mãe de Platão) e Esara de Lucânia. A lista de filósofos e cientistas posteriores influenciados por Pitágoras e sua escola de pensadores vai de Platão à Copérnico, de Aristóteles a Isaac Newton. Galileu, mais de vinte séculos depois de Pitágoras, ecoou palavras pitagóricas ao dizer que o grande livro da natureza só pode ser lido pelos que compreendem a linguagem da matemática.
Notas
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Música teria tido papel fundamental no pitagorismo: a harmonia musical, ao encontrar-se com a harmonia interior que os pitagóricos acreditavam existir no espírito humano, promoveria o equilíbrio e a purificação do ser. ↩
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Esta conclusão, de acordo com Aristóteles, não teria nascido de uma observação empírica, mas a partir de uma consideração acerca da importância hierárquica dos astros e demais elementos cósmicos. Coube a Copérnico, no século 16, a comprovação científica do heliocentrismo, no qual a Terra não figura mais no centro do universo. ↩