Pitágoras de Samos
Nasceu em c. 570 a.C., em Samos, Grécia. Morreu em c. 495 a.C.
A vida de Pitágoras e o movimento nascido a partir de seus ensinamentos e doutrinas são envoltos em dúvida e mistério. Não existem registros de escritos reconhecidamente pertencentes a Pitágoras; tudo o que se sabe sobre sua vida e suas ideias chegou até nós por via de relatos de contemporâneos e discípulos, conforme compilados pelos escribas que os escutaram.
Pitágoras teria conhecido e aprendido com Tales de Mileto, mas não há provas seguras. A profetisa Temistocleia, de Delfos, é também citada como uma possível mestra de Pitágoras, enquanto outras fontes citam a possibilidades de ambos terem sido irmãos.
Foi em Crotona, colônia grega no sul da Itália para onde se mudara após deixar sua Samos natal, que Pitágoras teria fundado, por volta de 530 a.C., aquilo que hoje conhecemos como a Escola Pitagórica ou pitagorismo. Tratava-se de uma doutrina de caráter ao mesmo tempo místico e filosófico em cujo cerne estava a crença de que a essência verdadeira das coisas residia em suas relações numéricas, conforme resumem as seguintes palavras de Nietzsche:
A contribuição original dos pitagóricos é (…) a significação do número e, portanto, a possibilidade de uma investigação exata em física. (…) Sua ideia fundamental é esta: a matéria, que é representada inteiramente destituída de qualidade, somente por relações numéricas adquire tal ou tal qualidade determinada. Tal é a resposta dada ao problema de Anaximandro. O vir-a-ser é um cálculo (…).” 1
Muitas das ideias pitagóricas giram em torno de conceitos como harmonia e ordem natural das coisas. Além dos números, também na música Pitágoras percebia uma representação desta ordem universal, sendo a ele atribuídas as primeiras formulações acerca da música como uma ciência matemática, ou seja, compreensível e representável através de equações e razões numéricas. O filósofo assírio Jâmblico anotou que, de acordo com Pitágoras, “a música é uma imagem do cosmos: quem a compreende, aproxima-se da ordem divina”. O conceito de musica universalis, que viria a ser futuramente desenvolvido pelo astrônomo Johannes Kepler, origina-se, portanto, do pitagorismo. 2
Havia também no pitagorismo o aspecto místico ou religioso, que costuma-se atribuir às influências que Pitágoras teria tido das culturas de locais como Egito, Fenícia e Pérsia, pelos quais o filósofo teria passado em suas viagens. O conceito de reencarnação ou transmigração das almas, por exemplo, é muitas vezes creditado como tendo origens orientais, e é uma das doutrinas fundamentais do pitagorismo.
Escreve José Américo Motta Pessanha:
A grande novidade introduzida, certamente pelo próprio Pitágoras, na religiosidade órfica 3 foi a transformação do processo de libertação da alma num esforço inteiramente subjetivo e puramente humano. A purificação resultaria do trabalho intelectual, que descobre a estrutura numérica das coisas e torna, assim, a alma semelhante ao cosmo, em harmonia, proporção, beleza. Pitágoras teria chegado à concepção de que todas as coisas são números através, inclusive, de uma observação no campo musical: verifica, no monocórdio, que o som produzido varia de acordo com a extensão da corda sonora. Ou seja, descobre que há uma dependência do som em relação à extensão, da música (tão importante como propiciadora de vivências religiosas estáticas) em relação à matemática.
Pitágoras concebe a extensão como descontínua: constituída por unidades invisíveis e separadas por um “intervalo”. Segundo a cosmologia pitagórica, esse “intervalo” seria resultante da respiração do universo, que, vivo, inalaria o ar infinito (pneuma ápeiron) em que estaria imerso. Mínimo de extensão e mínimo de corpo, as unidades comporiam os números. Os números não seriam, portanto — como virão a ser mais tarde —, meros símbolos a exprimir o valor das grandezas: para os pitagóricos, eles são reais, são a própria “alma das coisas”, são entidades corpóreas constituídas pelas unidades contíguas. Assim, quando os pitagóricos falam que as coisas imitam os números estariam entendendo essa imitação (mímesis) num sentido perfeitamente realista: as coisas manifestariam externamente a estrutura numérica que lhes é inerente. 4
A escola ou sociedade fundada por Pitágoras em Crotona exigia de seus discípulos uma vida ascética e de obediência a rígidos princípios morais. Entre estes princípios provavelmente estava o vegetarianismo, uma vez que no circuito da transmigração das almas os corpos dos animais eram também considerados como possíveis novas moradas para as almas dos seres humanos recém falecidos. É famoso o trecho de um poema satírico de Xenófanes que menciona a ocasião em que um filósofo — alegadamente Pitágoras — teria se apiedado de um cão que estava sendo surrado pelo seu dono, pedindo a este que deixasse o animal em paz pois reconhecera em seus latidos o som da voz de um falecido amigo.
Também são creditadas à Pitágoras diversas descobertas nas áreas da geometria 5, medicina e astronomia, além da possibilidade de ter sido quem primeiro se autodefiniu como um “amante da sabedoria”, expressão que está na base da etimologia grega do termo “filósofo”. Seus ensinamentos e sua influência espraiam-se ao longo dos séculos, inspirando desde Platão até Isaac Newton.
Notas
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Transcrito a partir do livro Os Pensadores, Vol. I - Os Pré-socráticos (Editora Abril - 1ª edição, agosto de 1973), páginas 62 e 63. Tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho. ↩
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É importante mencionar que muitos estudos atribuem ao filósofo pitagórico Filolau a verdadeira autoria das teorias relativas aos números e à “harmonia das esferas”. Teria sido por conta da liderança e do carisma de Pitágoras que, com o passar do tempo, muitas das descobertas de Filolau e de outros discípulos acabariam sendo atribuídas àquele que, afinal, empresta seu nome à Escola Pitagórica. ↩
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Orfismo é como ficou conhecida a antiga tradição religiosa grega associada ao mito de Orfeu. Existem debates sobre a extensão da influência do orfismo no pitagorismo e vice-versa; de fato, já foi sugerido que as duas tradições teriam uma origem única, configurando inicialmente uma mesma entidade que, através dos séculos e de acordo com diferentes leituras e interpretações, acabou sendo desmembrada em dois ramos. ↩
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Transcrito a partir do livro Os Pensadores - Os Pré-socráticos (Editora Abril - 2ª edição, 1978), página 23 e 24. ↩
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Embora leve seu nome, hoje em dia é tido como certo que o Teorema de Pitágoras já era conhecido e utilizado por egípcios e indianos, entre outros, muitos séculos antes de Pitágoras. ↩