Heráclito de Éfeso

Nasceu em c. 540 a.C., em Éfeso, Grécia (região atualmente pertencente à Turquia). Morreu em c. 470 a.C.

Heráclito de Éfeso é conhecido principalmente pela famosa alegoria “tudo flui como um rio”. Não há, contudo, comprovação destas exatas palavras terem sido ditas por Heráclito; tudo indica que tal elaboração foi sendo gradualmente construída pela tradição filosófica a partir de fragmentos do que talvez tenha sido uma obra maior chamada Sobre a natureza 1. Um destes fragmentos diz: “Não se pode percorrer duas vezes o mesmo rio e não se pode tocar duas vezes uma substância mortal no mesmo estado”. Escreveu Diógenes Laércio: “Eis, em linhas gerais, sua [de Heráclito] doutrina: tudo se compõe a partir do fogo e nele se resolve; tudo se origina segundo o destino e por direções contrárias se harmonizam os seres; tudo está cheio de almas e demônios. (…) Tudo se origina por oposição e tudo flui como um rio”. 2 Antes de Diógenes, Platão de forma mais dramática afirmaria: “Heráclito retira do universo a tranquilidade e a estabilidade, pois isso é próprio dos mortos, e atribuía movimento a todos os seres”. 3

Tido por muitos como o mais importante pensador pré-socrático, Heráclito notabilizou-se pela ênfase no devir, nas mudanças que acontecem em todas as coisas. Esse fluxo contínuo, de acordo com seu pensamento, seria resultante de uma dinâmica de alternância entre contrários; a mudança permanente seria a principal característica da realidade. Aqui configura-se um dos grandes dissensos no alvorecer do pensamento filosófico: enquanto Heráclito sugere a mudança contínua de tudo que compõe o universo e a inexistência de essências fixas e imóveis, seu contemporâneo Parmênides defende o contrário, ou seja, a existência de essências imutáveis, sendo a mudança aparente das coisas ao nosso redor pura ilusão provocada por nossos sentidos.

Escreve José Américo Motta Pessanha:

Proclama Heráclito: “É sábio escutar não a mim, mas a meu discurso (Lógos), e confessar que todas as coisas são Um” (D 50). O Logos seria a unidade nas mudanças e nas tensões a reger todos os planos da realidade: o físico, o biológico, o psicológico, o político, o moral. E a unidade nas transformações: “Deus é dia-noite, inverno-verão, guerra-paz, superabundância-fome; mas ele assume formas variadas, do mesmo modo que o fogo, quando misturado a arômatas, é denominado segundo os perfumes de cada um deles” (D 67). Por isso Homero errara em pedir que cessasse a discórdia entre os deuses e os homens: “O que varia está de acordo consigo mesmo” (D 51). A harmonia não é aquela que Pitágoras propunha, de supremacia do Um, nem a verdadeira justiça é a que Anaximandro havia concebido, ou seja, a extinção dos conflitos e das tensões através da compensação dos excessos de cada qualidade-substância em relação a seu oposto. A justiça não significa apaziguamento: pelo contrário, “o conflito é o pai de todas as coisas: de alguns faz homens; de alguns, escravos; de alguns, homens livres” (D 53). Mas ver a realidade como fundamentalmente uma tensão de opostos não significa necessariamente optar pela guerra, no plano político; “guerra”, neste último sentido, é apenas um dos pólos de uma tensão permanente (“Deus é dia-noite, inverno-verão, guerra-paz…”). E essa tensão, que constitui a verdadeira harmonia, necessita, para perdurar, de ambos os opostos. 4

A lei secreta do mundo, segundo a visão de Heráclito, reside então na relação de interdependência entre dois conceitos opostos, em luta permanente, mas que, ao mesmo tempo, não podem existir um sem o outro; nada exisitiria sem o seu oposto. Nessa dualidade ou harmonia entre os opostos, Heráclito enxergou o Lógos, a lei universal da natureza. Usado de forma genérica pelos gregos antigos no sentido de “discurso” ou “argumentação”, em Heráclito este termo passa a significar uma espécie de lei fundamental, regente da ordem no cosmos, conforme nos transmitem alguns dos seus outros fragmentos ou aforismos: “de todas as coisas o um e do um todas as coisas”; “só existe uma sabedoria: reconhecer a inteligência que governa todas as coisas através de todas as coisas”; “nem um deus nem um homem fabricou fabricou o universo mas sempre foi e é e será um fogo sempre vivo, que segundo suas próprias leis se acende e se apaga”. O Lógos seria, portanto, a inteligência superior a presidir a multiplicidade das coisas, sua constante mudança, a dinâmica universal. Hegel sintetiza assim este processo: “A natureza é isto que jamais repousa, e o todo é a passagem de um para outro, da divisão para a unidade, da unidade para a divisão”. 5

Em outro aforismo ou fragmento, Heráclito enfatiza a necessidade de compreender este processo: “Tudo fazemos e dizemos segundo a participação do entendimento divino [Lógos]. Muitos, porém, vivem como se tivessem um entendimento próprio; o entendimento, porém, não é outra coisa que a interpretação dos modos de ordenação do todo. Por isso, na medida em que tomamos parte no saber dele, estamos na verdade; mas, na medida em que temos coisas particulares, estamos na ilusão”. O entendimento da harmonia do universo só é possível ao homem que, para além das suas partes separadas, consegue enxergar e compreender a realidade em conjunto, onde os contrários não apenas coexistem como são essenciais. À sua maneira poética habitual, Nietzsche escreveria sobre o pensamento de Heráclito: “Assim intui o mundo somente o homem estético, que aprendeu com o artista e com o nascimento da obra de arte como o conflito da pluralidade pode trazer consigo lei e direito, como o artista fica em contemplação e em ação na obra de arte, como necessidade e jogo, conflito e harmonia, têm de emparelhar-se para gerar a obra de arte”. 6

Considera-se, atualmente, que nesta compreensão pioneira da natureza como um processo contínuo de tensão e transformação está a fundação da dialética. A intuição de Heráclito de que as coisas não existem isoladamente, mas sim em relação dinâmica com os seus opostos, está na base da abordagem dialética: a contradição como motor do movimento universal, produzindo estabilidade e a harmonia, segundo leis e dinâmicas racionais. Alguns séculos depois de Heráclito, Hegel, um de seus maiores herdeiros e renovadores, estruturaria a dialética no movimento de tese, antítese e síntese (ou afirmação, negação e superação) a partir da ideia de unidade dos opostos proposta pelo formidável pensador de Éfeso.

Notas

  1. Nos últimos tempos vem ganhando força a hipótese destes fragmentos serem na verdade aforismos independentes e separados, ao invés de partes de uma obra consolidada. ↩

  2. Transcrito a partir do livro Os Pensadores, Vol. I - Os Pré-socráticos (Editora Abril - 1ª edição, agosto de 1973), página 82. Tradução de Wilson Regis. ↩

  3. Transcrito a partir do livro Os Pensadores, Vol. I - Os Pré-socráticos (Editora Abril - 1ª edição, agosto de 1973), página 83. Tradução de Wilson Regis. ↩

  4. Transcrito a partir do livro Os Pensadores - Os Pré-socráticos (Editora Abril - 2ª edição, agosto de 1978), páginas 30 e 31. ↩

  5. Transcrito a partir do livro Os Pensadores, Vol. I - Os Pré-socráticos (Editora Abril - 1ª edição, agosto de 1973), páginas 102 e 103. Tradução de Ernildo Stein. ↩

  6. Transcrito a partir do livro Os Pensadores, Vol. I - Os Pré-socráticos (Editora Abril - 1ª edição, agosto de 1973), página 113. Tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho. ↩

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